Dió – O Acre não existe! Parte I – Os acreanos e as acreanas

Depois de uma semana no sul do Brasil, saí de Porto Alegre à São Paulo, e de São Paulo a Rio Branco. Viagem tranquila, de avião, com uma madrugada mal dormida em uma das mesinhas do aeroporto de Guarulhos. Nada comparado ao trem da morte, que é muito mais legal!

Hotel em Guarulhos

Em meus planos iniciais o Acre seria destino final da viagem. Dali voltaria para casa. Foi a notícia do nosso grande amigo-poeta César Félix de que iria para o Acre depois de 8 anos que mudou meus planos. Decisão acertada e que têm possibilitado o contato com o povo daqui e com um guia turístico gratuito – ao estilo do Tour Histórico do DCE pela UFSC! Pra quem viaja, sabe que mesmo que se queira conhecer de perto a realidade da população dos lugares por que passa, há um limite estabelecido pela falta de identificação e afinidade entre o viajante e o sujeito do local. No meu caso, não fosse pelo Cesinha, não estaria comendo tapioca com suco de cupuaçu no café da manhã, participando de aniversários de sobrinhos do tio do irmão do cunhado de uma típica família acreana, tendo contato com pessoal do governo, da cultura, indo pra baladinhas e batendo larica num mercado que funciona das 00h às 4h da manhã.

Mas vamos por partes. Os acreanos são simpatissíssimos. Vivem brincando, dando risada, inclusive dos próprios problemas. Pra quem está acostumado com o estado de espírito dos sulistas, principalmente o dos sulistas do interior, o choque é grande. O mesmo vale para a hospitalidade. Além do mais, as mudanças que o Acre viveu nos últimos anos elevou significativamente sua auto-estima, mas isso é assunto para o segundo post. Tudo isso é potencializado pelo fato de meus anfitriões serem da família do Cesinha. A mãe dele, dona Raimundinha, uma acreana de 1,50m, coração do tamanho do mundo, uma pureza só, nos deixa todo dia super à vontade com suas histórias e tapiocas no café-da-manhã (esqueci de dizer, estão comigo mais dox manezinhos amigos do Cesinha, Fernando e Tadeu). Como se não bastasse, os tios do poeta são um mais figura que o outro. Pra se ter uma idéia, o mais comédia se chama Zé Bezerra( ê, fela da puta!!!). E a cada dia chegam pencas de amigos de infância,  de cultura e de política (muitos dos amigos compõem o atual governo, mas isso é assunto para a parte II do post também). Outro grande impacto foram as acreanas. Lindas, a mestiçagem do Brasil deu certo mesmo. O Darça tinha razão.

00h, rio Branco. Na caçamba de uma pampa 94, buscando Fernando no Aeroporto

Raimundinha

Vatapá!

É, a altura não é o forte dos acreanos

Rio Branco é uma bela cidade, ao contrário da imagem que se poderia ter do Acre. Compartilha, obviamente, dos problemas das grandes e médias cidades brasileiras, mas tem seu charme. Surgida como entreposto de escoamento da borracha dos seringais acreanos para Belém e Manaus, Rio Branco nasceu às margens do Rio Acre e se segmentou, desde logo, entre os desgarrados dos dois ciclos da borracha e os coronéis fazendeiros e seringalistas. Aqueles, orindos principalmente do Nordeste em condições semelhantes à escravidão. Os últimos, uma elite branca vinculada aos centros exportadores de borracha e, mais recentemente, fazendeiros vindos do sul e sudeste. À margem, também, ficaram os povos originários, dizimados ou aculturados em nome da expansão dos seringais e da pecuária.

Após a chegada da tchurma toda, iniciamos nossas caminhadas pela cidade, visitando mercados, museus, bibliotecas, o centro histórico, etc. Dicas do Cesinha acatamos todas. Comemos tacacá, quibe de macaxera, creme de cupuaçu, sorvetes variados, tambaqui grelhado. Além de conhecer o lugar, esta passagem pelo Acre tem me dado mais e mais vontade de conhecer a riqueza cultural do restante do Brasil! Quem sabe em 2011?!

Mercado Público de Rio Branco

Tucupi, caldo extraído da macaxera

Pimentismo!

peixes amazônicos

Cesinha na função

Pra aguentar o calor, só um banho de rio

Pra esperar a chuva passar, paciência...

e mais paciência

Dia 31, acompanhamos o Reveillon no centro histórico, com queima de fogos, biritinhas e suspiros pelas acreanas!

Vista do Rio Acre na noite de reveillon

As massas vão às ruas!

É noite de vestir a roupa mais bonita!

Para a ceia, espetinhos, churros, pipocas...

Esperando meia-noite

Ops, descobriram o fotógrafo!

Feliz 2010, trotamericas!!!

Ahhh, as acreanas...

Pra fechar a noite, baixaria!

É isso aí, a Biblioteca tá fechando. Logo mais, a segunda parte do post “O Acre não existe!”: Jorge Vianna, o filho do Acre.

PS.: quanto às fotos, ainda falta a carudagem do Pira e da Anninha, mas logo logo chego lá!

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Engorda gaúcha

Filho de gaúchos e descendente de italianos que sou, carrego em minhas células adiposas ambas tradições culinárias. A primeira, principalmente pelo churrasco (o verdadeiro, não o de paulista ), e a segunda pela polenta, salame, queijo, vinho, saladas temperadas com muito vinagre (aargh!) e, obviamente, almoços com tooooda família no fim do ano.

Como manda a tradição e meu pai, fui passar o Natal na casa do nono e da nona em União da Serra, uma minúscula cidade escondida no meio da serra gaúcha. Desta vez, porém, “baixei” o espírito viajante, tentando prestar atenção naquilo que nos parece corriqueiro na convivência familiar e nos ambientes em que fomos criados . Como resultado, além de boas fotos e alguns quilos, passei bons momentos com tios e primos.

Paulista, churrasco. Muito prazer!

Paulista, churrasco. Muito prazer!

almoço em família

almoço no porão.

fuscão 69 do nono

fuscão 69 do nono

Nono Tarcísio, o mais velho.

Priminho Henrique, o mais novo.

  Interessante é que a região da serra gaúcha e o interior do sul do país em geral apresenta características muito particulares, tão “naturais” para que nasceu nelas, mas totalmente diferentes do restante do país. Essas características fariam do sul uma região “mais desenvolvida” do que outras do Brasil? Vamos aos fatos, hehe.

 Os  europeus não vieram para o sul do Brasil da mesma forma que os negros para o nordeste, mas tampouco vieram da mesma forma que seus conterrâneos trazidos como força de trabalho para as plantações de café do Sudeste.

 Os branquelos do sul saíram do velho mundo com a tarefa de colonizar esta região. Ao contrário da aculturação imposta aos negros e aos italianos do sudeste, os europeu “daqui” puderam manter sua forma de vida e desenvolver uma economia baseada na subsistência da família e nas pequenas trocas do excedente da produção agrícola. Aos poucos, começaram a manufaurar seus produos e vendê-los ao mercado. É aqui que nasce o mito do sul país como uma espécie de colônia de povoamento, repetindo a evolução econômica estadunidense e que seria responsável pela maior prosperidade da região.

 Se é certo que algumas dessas iniciativas prosperaram, a partir do momento que em que esses núcleos de povoamento europeu passam a ser assimilados pela estrutura econômica brasileira – monopolista e extrangeira – vão perdendo suas particularidades e sua capacidade de desenvolvimento próprio, integrando-se de forma subordinada aos interesses econômicos dominantes.

 Exemplos claros deste processo são a produção de leite e de carnes, em que grandes empresas do setor vendem os insumos, estipulam as condições e definem o preço do produto final pago ao pequeno agricultor.  O resultado são regiões economicamente dependentes, onde se comprimem o nível de vida de suas populações  e onde a saída daquelas empresas, seja por falência, seja pela transferência a uma região mais atrativa economicamente, ampliaria enormemente a pobreza. Acham que o sul é maravilhoso? Comparem o IDH do oeste catarinense e dos pampas gaúchos com o de certas regiões do nordeste e não verão grandes disparidades.

 O que quero dizer com tudo isso? Que o dilema do índio no altiplano peruano é o mesmo do alemão batata em Itapiranga e do italiano polenteiro em União da Serra!

 Voltando à Terra…

 Anteotem, dia 26, vim pra Porto Alegre descansar na casa da irmã da minhã mãe antes da viagem. Além de muito rango e muitos vinhos, visitei com meu irmão e minha mãe o Museu Iberê Camargo. Projetado pelo arquiteto modernista português Álvaro Siza, o edifício em frente ao Guaíba guarda obras do artista plástico gaúcho que dá nome ao museu. Além das exposições, o edifício é uma obra de arte e valeria, por si só, a visita. Mais informações em http://www.iberecamargo.org.br

 

 

Proibido chimarrão!

Após o café, fomos pegar o pôr-do-sol no rio Guaíba. Altos visu 😛 !

Pôr-do-sol no rio Guaíba

  Viu como viagem em família não é tão ruim assim?!

 Hoje, 22h20, vôo de Porto Alegre a Guarulhos. Um ronquinho nos bancos do aeroporto e dia 29, às 8h00, Guarulhos – Rio Branco!

 Besos,

Dió

Da metrópole do extremo-oeste catarinense: Dió!

“Tchau, tchau, tchau, eu vou viajar! Tchau, tchau, tchau, logo logo eu vou voltar!” Vovó Mafalda

Minha vez!

Já que o objetivo deste primeiro post é, além de mostrar os preparativos da viagem, apresentar o mochileiro, deixo aí em cima a comparação entre a criança feliz de macacão amarelo de 20 anos atrás com o meninão barbudo de hoje! Notaram a semelhança?

Como o “grupo de um homem só” deste diário de bordo coletivo, encontro-me na preparação para a minha quarta viagem pela América Latina. Esta será, porém, um pouco diferente das outras (por isso que o frio na barriga e as noites de sono agitado têm sido uma constante). Em primeiro lugar, porque serão dois meses na estrada, em comparação com os 30 dias em Cuba e na Bolívia. Em segundo lugar, porque viajarei sozinho. Terei de tomar minhas decisões e meus únicos companheiros para apoiá-las serão meu id e meu superego. Espero que o primeiro vença e o que segundo não me deixe morrer de fome no meio da amazônia peruana!

Mas embarco nesta viagem com o mesmo objetivo das outras: conhecer a história e a vida dos povos latinoamericanos, para tentar entender o porquê de sua situação atual e como constróem, hoje, seu futuro. Dizia o velho – e genial, e gostoso, e foda! – Darcy Ribeiro que a realidade não está em texto algum, mas na vida e na história. Só compreendendo o processo de formação das sociedades latinoamericanas é que poderemos entender os desafios que se lhes apresentam hoje e os conflitos que atravessam essas nações. O esforço é necessário para que se superem as visões que caracterizam as sociedades latinoamericas e, particularmente, as andinas, como povos atrasados na história da humanidade, impregnados de valores arcaicos que os impedem de avançar rumo a uma sociedade industrial e moderna. Tais argumentações, que servem somente como doutrinação ideológica para fazer-nos resignados com a pobreza do continente, passam por alto que o debut da América Latina no sistema mundial se deu através de sua participação compulsória como fornecedora de riquezas para o desenvolvimento europeu, primeiramente, e estadunidenses, mais recentemente. E que esse papel se cumpriu às custas da destruição de diversas civilizações culturalmente desenvolvidas, extermínio de milhões de indígenas e negros e transfiguração cultural generalizada, com o apoio declarado das elites brancas e mestiças da região. O desenvolvimento dos países centrais e o subdesenvolvimento dos nossos países são faces da mesma moeda

Se eu fosse um europeu ou estadunidense – e tenho todas as características físicas para passar por um italiano polenteiro – não me importaria com todo esse “blá blá blá” exposto acima. Sou, porém, brasileiro e latinoamericano (sim, o Brasil faz parte da América Latina), e basta uma olhada superficial para descobrir que compartilhamos o mesmo passado – ainda que com diferenças significativas – e os mesmos problemas no presente. O objetivo de conhecer o continente não é, portanto, atividade de erudição ou descoberta do exótico, mas de buscar as respostas para os nossos dilemas a partir da experiência dos nossos povos hermanos e, assim, nos descobrirmos como latinoamericanos também!

“Tá bom, ô Che Guevara do Oeste, mas e as paisagens, a cultura, a comida? Ou vai dizer que não vai tomar um trago, curtir com os(as) porteños(as), conhecer uns picos irados, etc.?”

É óbvio que não vou deixar de ver e fazer tudo isso! Mas o que acontece na América Latina hoje não ocorre em lugar nenhum do mundo! O mais bonito de se ver hoje não são as paisagens deslumbrantes, mas o povo de cada lugar tomando consciência de que é hora de construir seus países para si mesmos, de que é hora de passar a guiar seu próprio destino! A cordilheira, os lagos, os desertos de sal são os cenários privilegiados onde essa história acontece. Mais importantes são os atores, que carregam com a esperança uma beleza simples e apaixonante (op cit)! Viajar e não conhecer a história e a luta das gentes da Patria Grande seria, mais que tudo, um desperdício de tempo e grana.

Caralho, tá quase um artigo isso aqui. Vamos ao roteiro:

União da Serra (RS) – não é o começo oficial da viagem, mas vou pra casa do meu nono e minha nona na Serra Gaúcha passar o Natal, tomar vinho, comer polenta, salame e queijo.

Rio Branco (AC) – início da viagem. Uma semana com o poeta Cesinha conhecendo entidades comunitárias, seringais, botecos e a vida cultural acreana. Pato no tucupi, tucunaré assado, paca, açaí por R$1 e milhões de frutas amazônicas estão incluídos na visita!

Peru – um no mês país governado por Alan García, um presidente conservador com a popularidade baixíssima. Em manifestações recentes de comunidades indígenas amazônicas, mandou “descer a lenha” geral. Movimento indígena pegando fogo! Cuzco, Machu Picchu e Lima confirmados.  Tenho que descobrir como chegar à amazônia peruana. Ah, obviamente, ceviche e pisco sour!

Bolívia – uma semaninha para rever as paisagens maravilhosas do Lago Titicaca, da Ilha do Sol (tudo começou, há um tempo atrás…) e loucura e contradição de La Paz e El Alto. Se pá, pego a nova posse del compañero Evo Morales.

Norte argentino – 15 dias, até o carnaval – que dizem ser iradiu!! – por Salta, Jujuy, Tucumán y alrededores. Contato com a galera do Proyecto Sur

São Miguel do Oeste (SC) – metrópole catarinense conhecida pela sua instigante vida cultural. Destacam-se os restaurantes de padrão internacional, cinemas e o Teatro Municipal, que já recebeu astros como “Os Nativos”, Gaúcho da Fronteira e Xirú Missioneiro. No inverno, esta bela cidade recebe atores e diretores de cinema de todo o mundo para o conhecido Festival Internacional de Cinema Migueloestino, considerado hoje pela crítica especializada como a prévia do Festival de Cannes.

Tá quase, raça!!! Vamo ae, mano!!!

Bjos,

Dió “sangue nos zóio!”

Pira de Perfil, em Piracicaba

todos os angulos, muita ação!

Pira se apresentando! Ahuup. Com um modelito versátil, pronto para qualquer desafio na mata, na cidade ou na casinha de sapê. Começamos na parte superior com o estiloso boné da grife UFSC, seguido pela camiseta do brasil em Taidai e assim por diante. (O boné não está incluso de verdade, é do meu pai)

Bom galera, ja to pronto pra devorar o peru (natalino) e partir pras terras do norte.  Fiquei a semana inteira numa expectativa fudida, arrumando os ultimos detalhes, testando a tal da bolsa que me deu tanta dor de cabeça (e acabou sendo vermelha feia igual a do Jojo) e lendo uma porrada de coisas no fórum dos mochileiros, que, apesar dos pesares, tem dicas importantes.

Tô lendo também o livro “Se me deixam falar..” que é a história de uma mineira boliviana narrando a saga de seu povo, e falando sobre toda a conjuntura da Bolívia nos anos 70. A ideia era acabar ele antes de sair pra ler Veias Abertas por lá, mas tá dificil. E quero ler esse livro que elas tão lendo também, dei uma folhada (ou foleada?) e tem muita informação!

O roteiro do nosso grupo ainda está bem mal definido, sabemos alguns pontos principais, mas tá bem aberto. Todos estarão (né Eder?) dia 28 em Campo Grande e vamos fazer uma reuniao final pra fechar algumas coisas.

Acho que é isso, depois quero fazer um post com o lance dos equipamentos, pra facilitar a vida de quem estiver planejando uma viagem como essa no futuro.

Um beijo aos leitores,

Pira Vilela