Caganeira boliviana! um mito?

Vocês já podem imaginar sobre o quê é esse post: a comida na Bolívia! O título faz jus às delícias (e bagaças) que encontramos no caminho e como nós – troteiros brasileiros e ufsquianos – estamos lidando com os temperos e higiene peculiar desse apaixonante país.

feira na rua em La Paz

Vale ressaltar que o nosso baixo orçamento só nos permite comermos nos lugares mais simples. Iguarias como carne de lhama sao um pouco mais caros (nao tanto assim) mas que ainda nao tivemos a proeza y la plata de provar.

Entao vamos começar pelo básico. Pollo.

o super heroi do povao!

Se você nao come frango entao provavelmente passará dificuldades no território boliviano. Praticamente todas as refeiçoes sao compostas por pollo: pollo dorado, pollo a milanesa, pollo broaster.

Um prato básico, num restaurante simples, é composto por uma sopa de entrada, um segundo prato e às vezes uma sobremesa ou um mate de coca.

A sopa pode ser de amendoim (mani), yuca (mandioca), arroz, macarrao (fidel), etc. Esse segundo prato geralmente vem nas opçoes: pollo à milanesa, carne (de vaca) à milanesa, bife com ovo (tipo à cavalo) ou pollo dorado. De sobremesa, só tivemos a experiencia de ganhar umas gelatinas quentes e estranhas aqui em La Paz.

nossa primeira impressao da culinária boliviana no trem da morte

último dia em Mairana, mudando o cardápio pra lentilha com carne e batatas

 

E os temperos?

Pimenta (ají) – Acompanhando os pratos, há sempre na mesa um potinho com molho de pimenta. Essa pimenta é muito saborosa, tem um cheiro (na minha percepçao) de grama ou qualquer mato, é muito colorida e forte! Nao tem como comprar pronta porque eles fazem na hora e nao sei quantos mil ingredientes vao ali dentro. Só sei que vale a pena provar.

Cabelos – Sim, cabelos! Você os encontra em todos os tipos de refeiçoes, desde queijos de feiras, pastéis de rua, até no meio dos pollos, chás e tudo o mais que você puser na boca. Todos sao cabelos grossos e negros, cabelos de Chola! Afinal, sao elas a base da economia informal na Bolivia (vide post da Cholanninha: https://trotamerica.wordpress.com/2010/01/08/quem-sao-as-cholas/) e aparentemente sao elas o “faz-tudo” por onde passamos.

Minha primeira experiência com um cabelo boliviano foi em Samaipata, ao comer um negócio que parecia uma tapioca frita com queijo. Eu peguei aquele fio negro com vontade achando que era um fio delicioso de queijo derretido quando, ao som de “tlec!”, parti o fio ao meio com os dentes e foi entao que caiu a ficha.

Como a maioria da produçao de alimentos vem da regiao norte de La Paz, é possível encontrar refeiçoes mais baratas no altiplano se comparado à regiao oriental (Santa Cruz e fronteira).

cozinhando a janta no quarto em Sta. Cruz de La Sierra, como opçao mais barata

... e fazendo um ovinho mexido pro café-da-manha. "Viu como eu sei cozinhar, mae??"

Em Santa Cruz de La Sierra um almoço nos custava cerca de 12 bolivianos (uns 3 reais e pouco). Em Samaipata, almoçamos e jantamos por 11 bolivianos em uma pousada. Em Mairana, nossa refeiçao saiu 9 bolivianos (e a mais deliciosa ate entao!! Pollo dorado, macarrao, arroz e papas fritas). Em Cochabamba, eu e Éder sentamos num lugar sem perguntar o preço e pagamos 13 e 15 bolivianos respectivamente. Mas tudo bem, a fome era grande e a comida estava deliciosa.

Jojo saboreando um prato de arroz, batata, pollo e macarrao recheado com ovo (caminho entre Mairana e Cochabamba)

meu prato de 13 bs em Cochabamba

prato do Éder de 15 bs em Cochabamba

Agora em La Paz, achamos um lugar onde o almoço custa 6 bolivianos e a janta 4 bolivianos. O mesmo lugar das gelatinas extraterrenas.

o dito cujo

mas a cara era boa... (e o gosto também!)

muito boa!

Comemos por uns 3 dias seguidos lá até nosso estomago e intestino disserem “chega!”. Entao, no sábado (09/01) resolvemos mudar um pouco o cardápio e nos demos ao luxo de sentarmos num restaurante italiano e comermos spaghettis. Pra mim foi um prato dos deuses, um spaghetti à bolonhesa naquele momento foi a melhor coisa que poderia me acontecer! Se eu cheirasse ou degustasse qualquer pollo ou papas fritas mais uma vez, eles seriam evacuados por cima ou por baixo instantaneamente.

Maaas, isso acabou acontecendo com quatro membros da nossa trupe: Anninha, Jojo, Rafa e Éder. Eles finalmente provaram da caganeira (Anninha, Rafa e Éder, o gorfo) boliviana e foi instantaneamente após o nosso almoço italiano. Por isso que a culpa já pode ser retirada do restaurante mamma mia, já que uma digestao demora no mínimo algumas horas para ser concluída.

Anninha maaal só à base dos crackers

Todos cremos que foi culpa do nosso desayuno. Trouxemos um queijo branco de feira e uma supervitamina que a Chola colocou tudo o que tinha na vida dentro (leite, amendoim, manjericao, hortela, abacaxi, morango, mamao, banana, etc.).

Por incrível que pareça, a vitamina estava muito saborosa e foi a unica coisa que consegui ingerir. Já o queijo… além de cabelos de Chola, estava amarelado e azedinho. A galera conseguiu por pra dentro com a juda do paozinho também trazido da feira.

Pau-de-santo foi fundamental pra manter o ar do quarto respirável

E entao, de noitezinha, a caganeira me pegou também! Má oeee.

Nao sei do que foi, mas foi uma vezinha pra eu ficar bem de novo. Nao fiz parte da maratona cagosa que rolou no albergue no domingo (10/01) entre a Anninha e Rafa porque estava no lago Chiarkota subindo uma montanha a 5.200 metros de altura 🙂

curtindo la naturaleza boliviana enquanto los otros curtiam uma caganera boliviana

Besos (y nao quesos) a todos!

Bett.

Santa Cruz e Samaipata, by Bett

Entonces pueblo, já vi que Eder e Pira ja postaram sobre Santa Cruz de La Sierra e Samaipata, pero me gusta hablar acerca do que ví e también mostrar algunas fotitas que jo hay sacado 🙂

Assim que saímos do trem da morte abarcamos em Santa Cruz de La Sierra, uma cidade caótica, barulhenta com suas infinitas buzinas y sus “locos condutores”, capital do departamento de Santa Cruz, lado oriental da Bolivia e parte da conhecida “meia-lua”.

chola

chola vendendo frutas

esquina e mais vendedores

más uno (vista da janela do alojamento)

Nota-se claramente, assim como no país todo (como iremos notar a cada dia que passa) que a cidade é muito politizada. Santa Cruz é onde se concentra a galera reacionária de direita e a elite boliviana e a coisa é tao esplanada que a toda esquina vemos pichaçoes do tipo ” fora Evo”, “índigenas raça de mierda” e por aí adiante…

uma das pichaçoes que vimos pela cidade...

Em meio a galerias chiques, pubs estrangeiros, shoppings a ceu aberto e camionetes 4×4, arrumamos nossas coisas e fugimos para a ruralzinha Samaipata no dia 31 de Dezembro.

Depois de 4 horas dentro de uma minivan socada, chegamos na pracinha central da cidade que lembrou muito Parati no Rio de Janeiro ou até mesmo Guarda do Embaú, em SC. A diferença é que, em vez de praia, tínhamos as montanhas andinas nos circundando 🙂

painel do microbus

galera antes de entrar na van e o pira tb fotografando o painel peculiar do busum

vista em primeira pessoa do primeiro lugar que sentei antes de lotar a bodega

é, a porta ia aberta!

Conseguimos um alojamento bem bom e barato e passamos a noite de Reveillon ali na praça mesmo, conversando com uns gringos e locais bebados, andando pelas ruelas e fugindo dos fogos de artifício lançados incansavelmente pelas crianças em todos os lugares.

nuestro alojamiento

Mujer Basorera em açao!!

Rafa e o modelito Olodum, para todas as horas do dia.

No dia seguinte, depois de dormir bastante a tarde, fomos no aventurar numa trilha por algum daqueles morros. No meio do caminho, uma camionete cheia de crianças na caçamba parou e nos ofereceu carona. Ela nos deixou em frente a um zoológico no meio do morro mas no lugar de entrar preferimos simplesmente descer o caminho de volta e curtir a vista e o fim do dia.

Observando as cores da cidade a caminho da trilha.

nossa carona indo embora...

descendo de volta para a cidade, muitos cenários.

gatita na casita

estrada...

rua em frente ao nosso aljamento, alguns gringos passeando.

No domingo, arrumamos tudo, tomamos uma vitamina de morango no mercado e partimos a pé para o El Fuerte. Foram 9 km andando em asfalto quente e subindo as estradas de terra…

Chegando na divisa do rio, paramos num casebre pra almoçar, pesar nossas mochilas numa balança manual que a moça tinha lá (pira acabou de postar sobre isso) e descansar um pouco. Foi quando descobrimos que para entrar no El Fuerte nos custaria 50 pesos por cabeça, entonces preferimos montar acampamento ao lado do rio e descansar os ossos.

Só pra resumir o que foi a nossa brincadeira de acampar: llúvia, llúvia, llúvia!!! Antes de montar as barracas fomos fazer uma trilha e fomos levados e lavados pela tempestade torrencial de verao.

com poncho, sempre preparada!

nao tao preparados assim...

e esses aí, mais preparados que qualquer um. Farooo-fa-faa!

Com todos os pertences encharcados, montamos acampamento ao lado do rio e começamos a cozinhar a janta: macarrao, atum, molho de tomate e batata frita!

montando o acampamento depois da llúvia.

Só que com o cair da noite tivemos que deslocar o acampamento para um terreno mais alto por causa do perigo de tromba d’ água e medo de inundaçao do rio. Eu, Anninha e Rafa cozinhado sob a luz de uma lanterna e os varios vaga-lumes verdes fluorescentes enquanto os meninos levavam as barracas montadas e as mochilas rio acima no meio da escuridao.

Na manha seguinte, ainda abaixo de chuva, caminhamos os 9 km de volta em meio ao barro para pegarmos um taxi rumo à Mairana, uma cidadela daonde sái o onibus para Cochabamba.

despertando.

só pra nao perder o costume!

Mas isso fica para um proximo post.

Mais de 630 km no balanço do trem da morte.

Bom galera, nesse “post” vou colocar minha opinão sobre o tem da morte.

Começamos pela chegada em Corumbá às 6 da manhã, que não eram mais seis da manhã e sim 5. O fuso horário de Corumbá para São Paulo tem uma diferença de duas horas a menos e nossos relogios apontavam o horario de nossas casas.

Em Corumbá, pegamos um ônibus municipal em direção ao centro da cidade. Do centro é possível pegar outro em direção a fronteira. O motorista foi muito gente boa com nosso grupo e, diferente de alguns motoristas de Florianópolis, deixou que embarcassemos primeiro às mochilas gigantes na parte de trás do ônibus. Isso faz uma grande diferença quando você tem uma mochila de 5, 10, 15 e até mais quilos.

Da fronteira, optamos por pegar um taxi e ir ao Terminal Ferroviário dentro de Porto Quijaro para comprar as passagens. Aqui é bom não arriscar, é difícil achar passagem para o mesmo dia, ainda mais se tiver algumas frescuras. Ficamos na fila fritando no sol por mais de 2 horas esperando a abertura da bilheteria. Aqui o sol começa bem cedo, às oito da manhã parece meio dia. Fizemos amizade com uma galera de Maringá e também dei uma voltinha para comprar um caderno para começar o diário.

Quase próximo da abertura desce um guarda de dente de ouro e organiza a fila separando os homens e mulheres. O guarda fez duas filas e depois de algum tempo abriu a porta. Aconteceu uma correria e demos de cara com uma fila única. Várias bolivianas passaram na frente das nossas trotaméricas e ficamos em uma fila que era de saída. Depois de um tempo o guarda do dente de ouro vem nos tirar da fila. Aquela fila seria somente para mulheres gravidas, incapacitados e senhores ou senhoras de idade. Foi uma confusão e nossos amigos de Maringá conseguiram comprar a passagem pela fila de saída. Compraram passagem para a categoria Supper Pullman em um trem que sairia às 19 horas. Ficamos um tempo e aqui começa a malandragem: um senhor idoso cobra 20 bolivianos para comprar a sua passagem, afinal ele tem preferência na fila. Não somente ele faz isso, mas mulheres também fazem isso. Ou seja, aqui rola um comércio local e fica rolando o aproveitamento. Ficamos na fila e conseguimos comprar nossa passagem para a “primeira classe”. Aqui galera, primeira classe é um trem simplão, mais barato e é na realidade a última classe. São 52 bolivianos (dolar 6.9 bs e real = 3.4 bs) pagos para percorrer mais de 630 quilometros Bolívia a dentro.

A “primeira classe” conta com bancos não reclináveis e até um pouco apertados se você tiver uns dois metros de altura. Tivemos a sorte de ir no último vagão. O último vagão abre a possibilidade de ir no fim do trem tomando um vento e cuide-se para não cair do trem que mexe feito uma máquina de lavar. A “primeira classe” ainda conta com uma galera mais simples e durante o percurso vai aumentando o número de passageiros.

Lá no trem, conheci um tiozão de Minas que já é freguês do trem e faz sua terceira viagem. Duas delas foram sem a família e esse foi levando a esposa e dois filhos para conhecer. Fiz a pergunta: “e para onde vai?” e veio a pronta resposta: “vamos indo ai pra frente… quero tentar voltar por Foz do Iguaçu”.

O calor nesta região é forte, tem muita poeria, as vezes temos umas tempestades de poeira e hoje o calor batia 45ºC. Dentro do trem, pelo movimento, estavamos um pouco mais confortáveis, mas a grande sacada era ir no fim do trem tomando um vento e vendo a enorme quantidade de borboletas presentes nesta época do ano. Em regiões mais úmidas elas se concentram e após o passar do trem é possível olhar uma nuvem de borboletas e com sorte uma delas para na sua camisa.

Quando olhamos pelo caminho é possível conferir a quilometragem que fomos percorrendo. É melhor não contar a quilometragem que falta, a viagem é lenta e o trem balança muito. A viagem na classe mais popular nos garante uma maior liberdade e estavamos usando o máximo dela. A todo  momento ficavamos pendurados fazendo alguma filmagem, tirando fotos, conversando e tomando um vento para tentar afastar o calor.

Eu fui tirado do fundo do vagão algumas vezes. De vez em quando vinha um fiscal ou “cobrador” e tinhamos que ficar atentos para não ganhar uma bronca.

Fizemos várias amizades e reencontrei os dois mochileiros que tinha visto no terminal da Barra Funda. Estavam viajando de boa na classe Super Pullman.

A coisa vai ficando engraçada conforme o trem avança rumo a dentro. Aparecem vendedores e vendedoras a todo momento oferecendo algo para comer ou beber. O cardápio é vasto e tem pollo frito (frango  frito), churrasco no espeto, coca-cola, água, limonada, coisas típicas. Fiquei com viadagem e acabei não encarando o pollo, estou até agora arrependido. O cheiro das comidas são muito tentadores. Estavamos bem abastacidos de bolachas e outras coisas para comer.

A sensação de ir pendurado no trem é demais. Você pode ter acesso a muitas paisagens e ainda sentir o vento. O trem percorre por horas um vastidão de verde.

Conforme ia anoitecendo a galera se entregava e a moda começou com uma criança que deitou no corredor. A mãe da criança estendeu uma coberta e a menina deitou. Diferente das coisas que lemos por ai, não tinha mosquitos e esse é o horário que a coisa começa a pegar. Quando a noite cai parece que os mosquitos acordam para arregaçar quem està no mato. Carne nova é sempre assim, mas no trem não foi preciso usar repelentes.

Dormir é inevitável. O cansaço vem aparecendo e corpo vai cedendo aos poucos e quando menos percebemos já estamos tirando um cochilo.

Em um momento tivemos uma galera argentina brotando do nada e subindo para cima do trem com algumas toalhas e foram de pé. Não vi como foram embora, acho que do mesmo jeito mágico que vieram, foram.

Fizemos uma parada e já estavamos encorajados a comer as coisas dos vendedores ambulantes! U-huuuuuu, eu ia comer o tão esperado pollo e acabei não achando. Atravessei a rua para trocar uma grana e ter alguns miúdos no bolso e acabei comprando uma água. Voltei e perguntei quem queria um churrasquinho, só a Anninha quiz. Fui lá e comprei um dos melhores churrascos da minha vida. A carne era suculenta, gostosa, bem feita, bem temperada e só custavam 7 pesos (uns dois reais). Não bastava a carne ser boa, ainda vinha com um pouco de Yuca,  a nossa conhecida mandioca. A Bettina encarou uma marmitinha de 10 pesos que trazia arroz, ovo, pollo e mais alguma coisa que não me lembro.

Fizemos amizade com um senhor e ele nos apresentou uma cerveja  chamada Paceña. Agora imagine ai: Horas viajando num trem, calor calor calor mesmo, acabamos de fazer uma janta e nos apresentam uma cerveja gelada, congelando!!!. A Paceña é muito gostosa, saborosa mesmo. O outro rapaz que estava com aquele senhor nos apresentou a “Hoja de coca” e nos ensinou como se faz para saborear esse costume boliviano. A folha de coca deve ser colocada na língua e devemos ir quebrando a folha e fazendo uma bolinha com as folhas  no canto da boca. Isso se chama bolear e também utilizam um pouco de bicarbonato de sódio para acelerar o processo. Segundo ele, a folha é um estimulante, corta a fome e sede. Ele ofereceu e eu não aceitei. Nosso trotamérica Jony tem dor de cabeça com a folha e acabei deixando para lá, afinal dor de cabeça no trem não estaria com nada. Se é estimulante não sei, após algumas horas o cara estava capotado, dormindo brutamente.

O senhor acabou optando pelo chão e estendeu um pano para tirar um cochilo. Ele deve ter dormido por horas. O Jo, profissional do sono, que tem as manhas de dormir de boca e olhos abertos estendeu um isolante termico e fez um longo sono. Nessa hora hora eu fiquei entre nosso vagão e o da frente curtindo a lua quase cheia e as belas formações rochosas. É chapada por todos os lados e umas pedras gigantes que ficam em destaque. O trem contorna uma delas e é realmente para se pendurar no trem e curtir aquela vista singular.

Agora era minha vez de deitar no chão e fazer um sono. Fui pisoteado algumas vezes mas não teve problema, o importante era dormir. A cada pisada eu voltava a dormir com mais força e acho que comecei a ficar insensível a pisadas e curti um belo sono.

Mais tarde dei a vaga do isolante para o Pira.  O Pira estava dormindo com a Anna, ambos sentados no banco. Levantei e acordei ele e insisti para que ele dormisse no chão. Ele estava meio dormindo, não entendia direito e usei a melhor frase para isso: “se ficar ai dormindo vai perder o lugar e não vai dormir no chão”. Pronto! Funcionou e o Pira deitou no chão dando mais conforto para a Anninha. Na maior parte das vezes deixamos as meninas dormir nos bancos. Não sei se era mais confortável, mas podiam escolher e até dormir no chão também. A galera dorme de qualquer jeito e as poses são incríveis. Havia uma mulher que deitou com todas as costas e as pernas para cima. As pernas dela em formato de antena faziam um desenho cômico de um dos transporte mais legais que já peguei.

Perdi minha vaga e deixei a Bette ficar dormindo, fui para o fim do vagão. Não eramos mais o último trem, que foi crescendo ao longo do percurso. Acho que ganhamos mais uns quatro vagões. Lá fiquei no cháo, as vezes olhando entre os vagões, as vezes meio deitado. Em uma parada sobe um cara com um pato. Foi a primeira e única vez que vi durante o percurso. Aqui vemos um exagero do que lemos pela internet e não fomos em nenhum momento entre porcos e galinhas.

A  anninha, nossa mulher, banho usou mais ou menos uns 198765148 lenços umidecidos para tomar inúmeros banhos. Eu, por ficar andando pendurado, ganhei uma nova pele de suor e areia. Não cheguei sujo feito tatu não, apenas sentia algo a mais no rosto. E esse algo a mais é com certeza melhor do que a sujeira que pegamos depois de ficar um dia passeando por São Paulo ou outra de nossas cidades pouco poluídas.

O dia foi surgindo e era marcado pelo “hay café brasileño y te de manzanita”. A galera boliviana sabe cozinhar, tudo no trem é gostoso. Pegamos alguns bolinhos que não me lembro o nome. O senhor da cerveja era um degustador profissional e não deixava nada passar, ele pegava de tudo e depois de um tempo começou a me oferecer um pouco de tudo o que pegava. Perdi o medo e a frescura mesmo. Esse papo de que você ganha caganeira até morrer não foi verdade para nós. Estamos acostumados com o RU da UFSC e alguns devem estar acostumados com a vida em nossas repúblicas limpas. Para quem for fazer o trem: “Não tenha medo, coma o que vier! Sempre tenha em mente: O que é uma agulha para quem está com um toco enfiado no cú!”.

Perguntei o nome ao senhor da cerveja e ele respondeu que se chamava “Juan”. Ele desembarcou do trem um pouco antes da estação final e foi acompanhado pelo amigo de viagem.

A galera vendedora começou a mudar. O cenário já não era mais a mata e sim fazendas, cilos, abastecedores de farelos para trens. A sujeira começou a aparecer. Esgotos correndo a céu aberto, cachorros por todos os lados e tivemos a vista da região mais rica e desenvolvida da Bolívia: Santa Cruz. 

Os vendedores traziam novidades e acabei comprando um relógio por 25 pesos. Tinha cronometro, alarme, luz e era a prova de água. Fiquei conversando com o vendedor e descobri que ele tinha morado em São Paulo. Aliás somos realmente uma praga, existem brasileiros por toda a parte e quando não existem brasileiros existem pessoas que moraram em nossa terra. Além dessas bugigangas, começaram a aparecer os vendedores de saúde. Esse vendiam bebidas de salvia, outros pulseiras magnéticas e o enredo para venda era engraçadíssimo. Daria uma cena de filme!

O trem estava chegando ao fim. Não encare este trem se você quiser um mínimo de conforto ou não tiver a habilidade do tiozão de minas que ia pulando pelos bancos para andar pelo trem cheio de pessoas pelo chão. O calor ali na fronteira deve ser levado em consideração. Fique de olho nos seus pertences. A vista é sempre bonita enquanto se anda pela mata. Para aqueles que gostam de novidades e possuem bom humor é uma experiência e tanto.

Fico por aqui!

(Estamos em samaipata em uma lan-house, estamos bem e imersos na cultura boliviana, provando várias comidas e curtindo uma cidade construída em meio a montanhas!)

Trem da Morte

Eu (Bett) e o Éder nos sentamos aqui pra relatar as impressoes (e quantas!) da nossa trip no Trem da Morte. Temos 1h antes de pegar o onibus pra Samaipata (nao fazemos ideia do que vai ser nosso reveillon e nem se conseguiremos alojamento, mas temos nossas barracas pra isso) enquanto fazemos a digestao do almoco aqui em frente à praça Oruro, ainda em Santa Cruz de la Sierra.

Saímos de Pto. Quijarro às 12:45h do dia 29, terça-feira. Depois de umas 3h de espera na fila da bilheteria abaixo de um sol escaldante desde às 6h (!!!), bolivianas brotando do chao e furando a fila descaradamente na frente dos guardinhas e de mais uma fila interna (com ar condicionado, pelo menos, compramos passagens para a “Primera Clase”, que era a única disponível para aquele dia e era a que a gente queria comprar mesmo. Nao se engane pelo nome, essa classe é a pior de todas, a mais barata, onde nos disseram que iríamos viajar em bancos de madeira retos junto com as galinhas. Antigamente existia a “Segunda Clase” mas ela já foi extinguida…
A passagem custou 52 bolivianos por pessoa. As outras opçoes eram a classe “Pullman” e “SuperPullman”, onde a primeira é no mesmo trem que o nosso, ou seja, nao tem ar condicionado mas tem uns bancos um pouco melhores e a segunda opcao é a mais chiquezinha, com ar condicionado e banco reclinavel.
Prontos psicologicamente para as nossas 20 horas de viagem, subimos no úlitmo vagao do trem e procuramos nossos lugares. Os bancos eram apertadissimos, encosto reto (uns 80 graus de inclinaçao só pra nao dizer 90) e tava um calor de 45 graus na cidade. Combinamos de fazer um rodizio de cadeiras entre nos 6 porque tinha umas quebradas, umas com acesso melhor à janela, aquelas coisas…
Uma das coisas que chama mais atençao do trem é o mercado ambulante interno que rola a todo momento. A cada parada do trem subiam milhares de mulheres e criancas vendendo coisas nos corredores minusculos, como marmitas de frango, limonadas, coca cola, espetinhos de churrasco, gelatinas, etc… todos eles entoam um chamado quase cantico, formando um grande coral de vozes indo e vindo pelos vagoes. De noite bateu a fome e eu comi uma dessas marmitas de frango assado, arroz, batata frita e banana. Uma delicia!!! Um dos melhores frangos que eu ja comi, e o arroz era muito parecido com arroz chines. Tudo isso por 10 bolivianos… nao da nem 3 reais.
Na hora de dormir, por causa do calor e do pouco espaço que o banco nos oferecia, haviam corpos espalhandos pelos corredores, a melhor maneira que as pessoas encontraram de amenizar o calor e ganhar um pouco mais de conforto e assim conseguir dormir ao menos algumas horas. Quem se virava nos bancos mesmo (tipo eu), se arranjava com as pernas pra cima, pescoço dobrado, joelhos cruzados e as vezes membros pra fora da janela. Pro nivel da galera, acho que consegui dormir bastante mas tambem ganhei algumas dores musculares e tive que passar um gelolzinho no joelho em algum momento da madrugada, rs.
O visual do caminho é incrivel, muitas chapadas, morros de formas estranhas, verde. O triste era ver a sujeira ao redor dos trilhos quando a gente se aproximava de algum vilarejo ou estaçao, além de eu ter visto algumas pessoas jogarem lixo do trem pra fora das janelas durante o percurso. Enquanto era dia, podíamos circular pelos vagoes e corredores e era muito gostoso ir atrás do último vagao e curtir o vento no rosto enquanto avistava o trilho do trem que ficava para trás… 
Era em momentos como esse que podíamos conversar, ouvir os sotaques, ver as expressoes, sentir o cheiro (as vezes nao muito bom) e dar risadas. Foi esse o motivo pelo qual escolhemos ir na classe mais baixa do trem, era onde sabíamos que iríamos viajar com o povo boliviano de verdade, os campesinos, trabalhadores, crianças.
O Trem da Morte é uma mistura de cores, sabores, sotaques e olhares. Juntamente com a percussao ritmada das rodas do trem sobre os trilhos, as impressoes da cara e alma da Bolivia estao estampadas em cada gesto y sonido. Como mesmo disse Anninha, sabiamente: “Isso aqui nao é o trem da morte, é o trem da Vida!”