Mais de 630 km no balanço do trem da morte.

Bom galera, nesse “post” vou colocar minha opinão sobre o tem da morte.

Começamos pela chegada em Corumbá às 6 da manhã, que não eram mais seis da manhã e sim 5. O fuso horário de Corumbá para São Paulo tem uma diferença de duas horas a menos e nossos relogios apontavam o horario de nossas casas.

Em Corumbá, pegamos um ônibus municipal em direção ao centro da cidade. Do centro é possível pegar outro em direção a fronteira. O motorista foi muito gente boa com nosso grupo e, diferente de alguns motoristas de Florianópolis, deixou que embarcassemos primeiro às mochilas gigantes na parte de trás do ônibus. Isso faz uma grande diferença quando você tem uma mochila de 5, 10, 15 e até mais quilos.

Da fronteira, optamos por pegar um taxi e ir ao Terminal Ferroviário dentro de Porto Quijaro para comprar as passagens. Aqui é bom não arriscar, é difícil achar passagem para o mesmo dia, ainda mais se tiver algumas frescuras. Ficamos na fila fritando no sol por mais de 2 horas esperando a abertura da bilheteria. Aqui o sol começa bem cedo, às oito da manhã parece meio dia. Fizemos amizade com uma galera de Maringá e também dei uma voltinha para comprar um caderno para começar o diário.

Quase próximo da abertura desce um guarda de dente de ouro e organiza a fila separando os homens e mulheres. O guarda fez duas filas e depois de algum tempo abriu a porta. Aconteceu uma correria e demos de cara com uma fila única. Várias bolivianas passaram na frente das nossas trotaméricas e ficamos em uma fila que era de saída. Depois de um tempo o guarda do dente de ouro vem nos tirar da fila. Aquela fila seria somente para mulheres gravidas, incapacitados e senhores ou senhoras de idade. Foi uma confusão e nossos amigos de Maringá conseguiram comprar a passagem pela fila de saída. Compraram passagem para a categoria Supper Pullman em um trem que sairia às 19 horas. Ficamos um tempo e aqui começa a malandragem: um senhor idoso cobra 20 bolivianos para comprar a sua passagem, afinal ele tem preferência na fila. Não somente ele faz isso, mas mulheres também fazem isso. Ou seja, aqui rola um comércio local e fica rolando o aproveitamento. Ficamos na fila e conseguimos comprar nossa passagem para a “primeira classe”. Aqui galera, primeira classe é um trem simplão, mais barato e é na realidade a última classe. São 52 bolivianos (dolar 6.9 bs e real = 3.4 bs) pagos para percorrer mais de 630 quilometros Bolívia a dentro.

A “primeira classe” conta com bancos não reclináveis e até um pouco apertados se você tiver uns dois metros de altura. Tivemos a sorte de ir no último vagão. O último vagão abre a possibilidade de ir no fim do trem tomando um vento e cuide-se para não cair do trem que mexe feito uma máquina de lavar. A “primeira classe” ainda conta com uma galera mais simples e durante o percurso vai aumentando o número de passageiros.

Lá no trem, conheci um tiozão de Minas que já é freguês do trem e faz sua terceira viagem. Duas delas foram sem a família e esse foi levando a esposa e dois filhos para conhecer. Fiz a pergunta: “e para onde vai?” e veio a pronta resposta: “vamos indo ai pra frente… quero tentar voltar por Foz do Iguaçu”.

O calor nesta região é forte, tem muita poeria, as vezes temos umas tempestades de poeira e hoje o calor batia 45ºC. Dentro do trem, pelo movimento, estavamos um pouco mais confortáveis, mas a grande sacada era ir no fim do trem tomando um vento e vendo a enorme quantidade de borboletas presentes nesta época do ano. Em regiões mais úmidas elas se concentram e após o passar do trem é possível olhar uma nuvem de borboletas e com sorte uma delas para na sua camisa.

Quando olhamos pelo caminho é possível conferir a quilometragem que fomos percorrendo. É melhor não contar a quilometragem que falta, a viagem é lenta e o trem balança muito. A viagem na classe mais popular nos garante uma maior liberdade e estavamos usando o máximo dela. A todo  momento ficavamos pendurados fazendo alguma filmagem, tirando fotos, conversando e tomando um vento para tentar afastar o calor.

Eu fui tirado do fundo do vagão algumas vezes. De vez em quando vinha um fiscal ou “cobrador” e tinhamos que ficar atentos para não ganhar uma bronca.

Fizemos várias amizades e reencontrei os dois mochileiros que tinha visto no terminal da Barra Funda. Estavam viajando de boa na classe Super Pullman.

A coisa vai ficando engraçada conforme o trem avança rumo a dentro. Aparecem vendedores e vendedoras a todo momento oferecendo algo para comer ou beber. O cardápio é vasto e tem pollo frito (frango  frito), churrasco no espeto, coca-cola, água, limonada, coisas típicas. Fiquei com viadagem e acabei não encarando o pollo, estou até agora arrependido. O cheiro das comidas são muito tentadores. Estavamos bem abastacidos de bolachas e outras coisas para comer.

A sensação de ir pendurado no trem é demais. Você pode ter acesso a muitas paisagens e ainda sentir o vento. O trem percorre por horas um vastidão de verde.

Conforme ia anoitecendo a galera se entregava e a moda começou com uma criança que deitou no corredor. A mãe da criança estendeu uma coberta e a menina deitou. Diferente das coisas que lemos por ai, não tinha mosquitos e esse é o horário que a coisa começa a pegar. Quando a noite cai parece que os mosquitos acordam para arregaçar quem està no mato. Carne nova é sempre assim, mas no trem não foi preciso usar repelentes.

Dormir é inevitável. O cansaço vem aparecendo e corpo vai cedendo aos poucos e quando menos percebemos já estamos tirando um cochilo.

Em um momento tivemos uma galera argentina brotando do nada e subindo para cima do trem com algumas toalhas e foram de pé. Não vi como foram embora, acho que do mesmo jeito mágico que vieram, foram.

Fizemos uma parada e já estavamos encorajados a comer as coisas dos vendedores ambulantes! U-huuuuuu, eu ia comer o tão esperado pollo e acabei não achando. Atravessei a rua para trocar uma grana e ter alguns miúdos no bolso e acabei comprando uma água. Voltei e perguntei quem queria um churrasquinho, só a Anninha quiz. Fui lá e comprei um dos melhores churrascos da minha vida. A carne era suculenta, gostosa, bem feita, bem temperada e só custavam 7 pesos (uns dois reais). Não bastava a carne ser boa, ainda vinha com um pouco de Yuca,  a nossa conhecida mandioca. A Bettina encarou uma marmitinha de 10 pesos que trazia arroz, ovo, pollo e mais alguma coisa que não me lembro.

Fizemos amizade com um senhor e ele nos apresentou uma cerveja  chamada Paceña. Agora imagine ai: Horas viajando num trem, calor calor calor mesmo, acabamos de fazer uma janta e nos apresentam uma cerveja gelada, congelando!!!. A Paceña é muito gostosa, saborosa mesmo. O outro rapaz que estava com aquele senhor nos apresentou a “Hoja de coca” e nos ensinou como se faz para saborear esse costume boliviano. A folha de coca deve ser colocada na língua e devemos ir quebrando a folha e fazendo uma bolinha com as folhas  no canto da boca. Isso se chama bolear e também utilizam um pouco de bicarbonato de sódio para acelerar o processo. Segundo ele, a folha é um estimulante, corta a fome e sede. Ele ofereceu e eu não aceitei. Nosso trotamérica Jony tem dor de cabeça com a folha e acabei deixando para lá, afinal dor de cabeça no trem não estaria com nada. Se é estimulante não sei, após algumas horas o cara estava capotado, dormindo brutamente.

O senhor acabou optando pelo chão e estendeu um pano para tirar um cochilo. Ele deve ter dormido por horas. O Jo, profissional do sono, que tem as manhas de dormir de boca e olhos abertos estendeu um isolante termico e fez um longo sono. Nessa hora hora eu fiquei entre nosso vagão e o da frente curtindo a lua quase cheia e as belas formações rochosas. É chapada por todos os lados e umas pedras gigantes que ficam em destaque. O trem contorna uma delas e é realmente para se pendurar no trem e curtir aquela vista singular.

Agora era minha vez de deitar no chão e fazer um sono. Fui pisoteado algumas vezes mas não teve problema, o importante era dormir. A cada pisada eu voltava a dormir com mais força e acho que comecei a ficar insensível a pisadas e curti um belo sono.

Mais tarde dei a vaga do isolante para o Pira.  O Pira estava dormindo com a Anna, ambos sentados no banco. Levantei e acordei ele e insisti para que ele dormisse no chão. Ele estava meio dormindo, não entendia direito e usei a melhor frase para isso: “se ficar ai dormindo vai perder o lugar e não vai dormir no chão”. Pronto! Funcionou e o Pira deitou no chão dando mais conforto para a Anninha. Na maior parte das vezes deixamos as meninas dormir nos bancos. Não sei se era mais confortável, mas podiam escolher e até dormir no chão também. A galera dorme de qualquer jeito e as poses são incríveis. Havia uma mulher que deitou com todas as costas e as pernas para cima. As pernas dela em formato de antena faziam um desenho cômico de um dos transporte mais legais que já peguei.

Perdi minha vaga e deixei a Bette ficar dormindo, fui para o fim do vagão. Não eramos mais o último trem, que foi crescendo ao longo do percurso. Acho que ganhamos mais uns quatro vagões. Lá fiquei no cháo, as vezes olhando entre os vagões, as vezes meio deitado. Em uma parada sobe um cara com um pato. Foi a primeira e única vez que vi durante o percurso. Aqui vemos um exagero do que lemos pela internet e não fomos em nenhum momento entre porcos e galinhas.

A  anninha, nossa mulher, banho usou mais ou menos uns 198765148 lenços umidecidos para tomar inúmeros banhos. Eu, por ficar andando pendurado, ganhei uma nova pele de suor e areia. Não cheguei sujo feito tatu não, apenas sentia algo a mais no rosto. E esse algo a mais é com certeza melhor do que a sujeira que pegamos depois de ficar um dia passeando por São Paulo ou outra de nossas cidades pouco poluídas.

O dia foi surgindo e era marcado pelo “hay café brasileño y te de manzanita”. A galera boliviana sabe cozinhar, tudo no trem é gostoso. Pegamos alguns bolinhos que não me lembro o nome. O senhor da cerveja era um degustador profissional e não deixava nada passar, ele pegava de tudo e depois de um tempo começou a me oferecer um pouco de tudo o que pegava. Perdi o medo e a frescura mesmo. Esse papo de que você ganha caganeira até morrer não foi verdade para nós. Estamos acostumados com o RU da UFSC e alguns devem estar acostumados com a vida em nossas repúblicas limpas. Para quem for fazer o trem: “Não tenha medo, coma o que vier! Sempre tenha em mente: O que é uma agulha para quem está com um toco enfiado no cú!”.

Perguntei o nome ao senhor da cerveja e ele respondeu que se chamava “Juan”. Ele desembarcou do trem um pouco antes da estação final e foi acompanhado pelo amigo de viagem.

A galera vendedora começou a mudar. O cenário já não era mais a mata e sim fazendas, cilos, abastecedores de farelos para trens. A sujeira começou a aparecer. Esgotos correndo a céu aberto, cachorros por todos os lados e tivemos a vista da região mais rica e desenvolvida da Bolívia: Santa Cruz. 

Os vendedores traziam novidades e acabei comprando um relógio por 25 pesos. Tinha cronometro, alarme, luz e era a prova de água. Fiquei conversando com o vendedor e descobri que ele tinha morado em São Paulo. Aliás somos realmente uma praga, existem brasileiros por toda a parte e quando não existem brasileiros existem pessoas que moraram em nossa terra. Além dessas bugigangas, começaram a aparecer os vendedores de saúde. Esse vendiam bebidas de salvia, outros pulseiras magnéticas e o enredo para venda era engraçadíssimo. Daria uma cena de filme!

O trem estava chegando ao fim. Não encare este trem se você quiser um mínimo de conforto ou não tiver a habilidade do tiozão de minas que ia pulando pelos bancos para andar pelo trem cheio de pessoas pelo chão. O calor ali na fronteira deve ser levado em consideração. Fique de olho nos seus pertences. A vista é sempre bonita enquanto se anda pela mata. Para aqueles que gostam de novidades e possuem bom humor é uma experiência e tanto.

Fico por aqui!

(Estamos em samaipata em uma lan-house, estamos bem e imersos na cultura boliviana, provando várias comidas e curtindo uma cidade construída em meio a montanhas!)

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Um pensamento sobre “Mais de 630 km no balanço do trem da morte.

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