Trem da Morte

Eu (Bett) e o Éder nos sentamos aqui pra relatar as impressoes (e quantas!) da nossa trip no Trem da Morte. Temos 1h antes de pegar o onibus pra Samaipata (nao fazemos ideia do que vai ser nosso reveillon e nem se conseguiremos alojamento, mas temos nossas barracas pra isso) enquanto fazemos a digestao do almoco aqui em frente à praça Oruro, ainda em Santa Cruz de la Sierra.

Saímos de Pto. Quijarro às 12:45h do dia 29, terça-feira. Depois de umas 3h de espera na fila da bilheteria abaixo de um sol escaldante desde às 6h (!!!), bolivianas brotando do chao e furando a fila descaradamente na frente dos guardinhas e de mais uma fila interna (com ar condicionado, pelo menos, compramos passagens para a “Primera Clase”, que era a única disponível para aquele dia e era a que a gente queria comprar mesmo. Nao se engane pelo nome, essa classe é a pior de todas, a mais barata, onde nos disseram que iríamos viajar em bancos de madeira retos junto com as galinhas. Antigamente existia a “Segunda Clase” mas ela já foi extinguida…
A passagem custou 52 bolivianos por pessoa. As outras opçoes eram a classe “Pullman” e “SuperPullman”, onde a primeira é no mesmo trem que o nosso, ou seja, nao tem ar condicionado mas tem uns bancos um pouco melhores e a segunda opcao é a mais chiquezinha, com ar condicionado e banco reclinavel.
Prontos psicologicamente para as nossas 20 horas de viagem, subimos no úlitmo vagao do trem e procuramos nossos lugares. Os bancos eram apertadissimos, encosto reto (uns 80 graus de inclinaçao só pra nao dizer 90) e tava um calor de 45 graus na cidade. Combinamos de fazer um rodizio de cadeiras entre nos 6 porque tinha umas quebradas, umas com acesso melhor à janela, aquelas coisas…
Uma das coisas que chama mais atençao do trem é o mercado ambulante interno que rola a todo momento. A cada parada do trem subiam milhares de mulheres e criancas vendendo coisas nos corredores minusculos, como marmitas de frango, limonadas, coca cola, espetinhos de churrasco, gelatinas, etc… todos eles entoam um chamado quase cantico, formando um grande coral de vozes indo e vindo pelos vagoes. De noite bateu a fome e eu comi uma dessas marmitas de frango assado, arroz, batata frita e banana. Uma delicia!!! Um dos melhores frangos que eu ja comi, e o arroz era muito parecido com arroz chines. Tudo isso por 10 bolivianos… nao da nem 3 reais.
Na hora de dormir, por causa do calor e do pouco espaço que o banco nos oferecia, haviam corpos espalhandos pelos corredores, a melhor maneira que as pessoas encontraram de amenizar o calor e ganhar um pouco mais de conforto e assim conseguir dormir ao menos algumas horas. Quem se virava nos bancos mesmo (tipo eu), se arranjava com as pernas pra cima, pescoço dobrado, joelhos cruzados e as vezes membros pra fora da janela. Pro nivel da galera, acho que consegui dormir bastante mas tambem ganhei algumas dores musculares e tive que passar um gelolzinho no joelho em algum momento da madrugada, rs.
O visual do caminho é incrivel, muitas chapadas, morros de formas estranhas, verde. O triste era ver a sujeira ao redor dos trilhos quando a gente se aproximava de algum vilarejo ou estaçao, além de eu ter visto algumas pessoas jogarem lixo do trem pra fora das janelas durante o percurso. Enquanto era dia, podíamos circular pelos vagoes e corredores e era muito gostoso ir atrás do último vagao e curtir o vento no rosto enquanto avistava o trilho do trem que ficava para trás… 
Era em momentos como esse que podíamos conversar, ouvir os sotaques, ver as expressoes, sentir o cheiro (as vezes nao muito bom) e dar risadas. Foi esse o motivo pelo qual escolhemos ir na classe mais baixa do trem, era onde sabíamos que iríamos viajar com o povo boliviano de verdade, os campesinos, trabalhadores, crianças.
O Trem da Morte é uma mistura de cores, sabores, sotaques e olhares. Juntamente com a percussao ritmada das rodas do trem sobre os trilhos, as impressoes da cara e alma da Bolivia estao estampadas em cada gesto y sonido. Como mesmo disse Anninha, sabiamente: “Isso aqui nao é o trem da morte, é o trem da Vida!”
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