A Bolivia vive um momento muito especial atualmente. Mas como a História não é um caminho tranquilo, os trancos são muitos e os barrancos ainda bem altos para a Revolução Democrática e Cultural boliviana.
O termo – Revolução – pode espantar muitos mas para quem está acompanhando de perto, não resta dúvida: a bolivia está sendo refundada à favor das gentes que, desde a chegada do europeu em nossas terras, nunca mais foram levadas em conta.
“Ué, mas isso não pode estar acontecendo! Cadê a ditadura do proletariado boliviano então?” – diriam alguns. ” Na Bolivia? Aquele país tão pequeno e sem tradição não tem como dar o exemplo pra gente, né?” – diriam outros. Estas e muitas outras indagações cristalizam o eurocentrismo onipresente em nosso pensamento hà tanto colonizado.
Queiram os manuais “marxistas-ortodoxos” e franco-americanos ou não, aqui quem encabeça a mudança são os povos originários . Foram estes que bancaram o questionamento ao modelo neoliberal implantado na Bolivia e trouxeram boas novas – e um projeto de nação indigena e popular – para los de abajo após a perda da vitalidade do movimento operário boliviano.
É que a economia boliviana mudou nas ultimas décadas. As manufaturas e as minas perderam a antiga centralidade que tinham na economia do país e, com isso, o movimento operário, sua tradicional vitalidade. Isso explica porque a Central Obrera Boliviana (COB para os íntimos) não é mais vanguarda de coisa nenhuma!

Mas quem disse que a COB sumiu? Presente nas marchas que derrubaram o Presidente Carlos Mesa em Maio de 2005
Quem puxa a coisa toda hoje é o Instrumento Politico para a Soberania dos Povos (nome original do MAS), essa aglomeração de organizações sociais edificada por iniciativa dos povos originários e que impulsionou Evo Morales e Alvaro Garcia Linera para a presidência e vice do executivo.
Isso acontece porque são exatamente estes que se encontram – desde sua forma milenar de organizar sua economia, cultura, sistema politico, enfim, sua vida comunitária – nas enclaves estratégicas do desenvolvimento neoliberal boliviano: a destruição das plantações de Coca, o avanço do latifúndio e a privatização dos recursos naturais vitais – água, terra, petróleo e gás, fundamentalmente.
Ó là! Não tem coincidência: Evo Morales era sindicalista cocalero no Chapare e sua liderança nasce na resistencia aos projetos estadunidenses para a Coca e a Confederacion Sindical Unica de los Trabajadores Campesinos de Bolivia (entidade que organiza exatamente as comunidades e os trabalhadores do campo boliviano) foi uma das principais protagonistas na “Guerra del Agua” – onde tudo começou..
É deste cenário de lutas concretas por uma vida digna e contra uma elite local retrógrada e aliada ao iperilismo estadunidense que surge o MAS-ISPS.
Mas como assim “desde sua forma milenar de organização”?! Um flashback rapidinho pra tratar disso.
Desde os espanhóis é que a resistencia dos povos originários… resiste! =/ Quando eles chegaram, se depararam com sociedades desenvolvidas (o império Inca tinha “acabado” de conquistar o Império Colla aymará, por exemplo) e não teve outra opção à não ser se sobrepor às mesmas, já que não tinha nenhuma possibilidade de simplesmente erradicá-las. Ou seja, os aymará, os quechuas, os guaranis continuaram se organizando como o faziam antes pero, ao invés de pagar impostos e destacar mão de obra para a realeza Inca, o faziam para a coroa espanhola.

Chola colhendo representando a policultura originária e lancha o liberalismo-imperialista, na Ilha do Sóol..
De forma beeeem simplificada, é assim que os espanhóis garantiram que a prata fosse pra europa e, do mesmo jeito, que a cultura originária sobreviveu hasta los dias de hoy! É claro que os espanhóis, nesse processo, nunca deixaram de tentar corromper todas as autoriades comunitárias para seus interesses – muitas vezes com sucesso – mas, assim mesmo, até hoje mais de 60% da população boliviana se proclama originária de alguma forma!!
Pooooor issoooo, é que não é nenhuma simbologia barata colocar a wiphala – bandeira originária – triunfante ao lado da bandeira nacional no Palácio Quemado (presidencial) na praça murillo; passar a denominar o Estado Boliviano de Plurinacional; ou empossar o primeiro presidente indigena da América Latina em Tiwanaku, capital espiritual dos povos originários desde tempos anteriores ao império Inca.
É assim que quem, à muito, não tinha vez em sua própria terra, volta a opinar e dar suas cores nos momentos e lugares que decidirão os rumos da sociedade boliviana e da construção de seu socialismo comunitário, único e criativo, como tudo na Bolívia!























